Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 18 de abril de 2018

Santidade em família


À luz da mais recente exortação apostólica do Papa Francisco – ‘Alegrai-vos e exultai’ – somos todos e cada um chamados a viver a santidade, sobretudo, em família.

Diz o Papa: «Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais» (n.º 14).

Ora, diante deste tão amplo e significativo desafio nenhum de nós, seja qual for a sua vocação, o seu estado de vida ou até a sua idade poderá deixar de sentir-se chamado a traduzir a santidade em gestos, palavras e sinais simples, visíveis e humildes.

Será à luz da exortação do Papa Francisco que iremos procurar viver, na paróquia onde estou há quase quatrocentas semanas, o tempo do mês de maio, servindo-nos do texto de ‘Alegrai-vos e exultai’ para a meditação dos mistérios do Rosário e incluindo em cada dezena uma vertente da família…em sentido estrito e alargado. Assim, nos mistérios gozosos temos em conta o primeiro capítulo da exortação, sob o título de ‘o chamamento à santidade’ e rezamos, nas cinco dezenas, respetivamente, por marido, esposa, mãe, pai e filhos. Nos mistérios dolorosos abordamos a temática do segundo capítulo – ‘dois inimigos subtis da santidade’ – e colocamo-nos em intercessão pelos avós paternos e maternos, os netos, os irmãos e os primos. Nos mistérios luminosos temos com ponto de referência o quarto capítulo da exortação papal – ‘algumas caraterísticas da santidade no mundo atual’ – e rezamos, no contexto familiar, pelo sogro, a sogra, genro e nora e ainda pelos cunhados. Quanto aos mistérios gloriosos seguiremos na reflexão da exortação apostólica o capítulo quinto – ‘luta, vigilância e discernimento’ – e teremos em conta a intercessão pelos tios, sobrinhos, padrinhos e afilhados, padrasto/madrasta e ainda os enteados…  

= Como poderá ser a família ‘escola de santidade’?

Na medida dos aspetos controversos e complexos, das questões mais ou menos delicadas e hipersensíveis, dos problemas a tratar com pinças pela sua conjuntura e urgência, ousar colocar a família como espaço de santidade poderá parecer algo de utópico, no mais lídimo sentido da obra de Tomás Moro: será um ‘sem-lugar’ ou antes um lugar-ideal a construir de forma eclesial? Tornar a família ‘escola de santidade’ será mais uma vocação ou uma missão?

Atendendo às multíplices feridas de tantas famílias do nosso tempo, torna-se muito delicado abordar esta questão, pois não haverá, por certo, nenhuma família onde não se encontre quem possa apresentar um caso, no mínimo, de anomalia entre algum dos seus membros. Como sentir aí esse chamamento à santidade, se o que se vê ou revela, é antes o seu contrário? Como atender ou mesmo entender a complexidade das novas situações entre os magoados e até traumatizados? Como se poderá responder a quem se sinta em crise ou a tentar ultrapassar escolhas subsequentes às opções remendadas?

Talvez tenhamos de reciclar muitos dos entendimentos rigoristas, abrindo perspetivas a quem possa estar abrangido pelas marcas de trocas e de mudanças. Só quem não tenha coração compreensivo e espírito sensato poderá exigir que se mantenham condições onde o bom senso já expirou de validade. Neste, como em tantos outros aspetos da vida, poderemos usar como critério a sentença de Jesus: quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra de acusação, de julgamento ou de legalismo…

Fazer da família uma nova oportunidade de viver a santidade é algo mais do que uma miragem, na medida em que há tantos casais e famílias que procuram viver na fidelidade e na união com grande esforço e empenho de tantos dos seus membros… Embora as exceções sejam algumas, a regra ainda tem força de vida.

       

António Sílvio Couto



segunda-feira, 16 de abril de 2018

Santidade q. b. descomplicada


Com data de 19 de março, mas publicada a 9 de abril passado, o Papa Francisco presenteou-nos com uma nova exortação apostólica – ‘Gaudete et exsultate’ (alegrai-vos e exultai) – sobre o chamamento à santidade no mundo atual.

Em cento e setenta e sete números, distribuídos em cinco pequenos capítulos, o Papa traça as linhas gerais – simples e diretas, breves e incisivas, exequíveis e audazes – para que os fiéis católicos possam, de verdade, querer ser santos neste tempo e de jeito muito concretizável…De referir ainda uma longa lista de citações (em notas de rodapé e no texto) das mais diversas influências de santidade com que a Igreja católica vê ornada a sua história de heróis e santos ao longo dos séculos.

Eis os títulos dos cinco capítulos ou etapas da reflexão/partilha do Papa Francisco: o chamamento à santidade, dos inimigos subtis da santidade (neognosticismo e neopelagianismo), à luz do mestre (as bem-aventuranças), algumas caraterísticas da santidade no mundo atual, luta, vigilância e discernimento.

Sem correr o risco de esgotar o assunto – ele é mais do que substancial para ser adjetivado ou reduzido as pequenas frases de conveniência – vamos respigar alguns excertos, embora possamos voltar a esta matéria noutras ocasiões e circunstâncias.

* «Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais» (n.º 14).

* «Precisamos dum espírito de santidade que impregne tanto a solidão como o serviço, tanto a intimidade como a tarefa evangelizadora, para que cada instante seja expressão de amor doado sob o olhar do Senhor. Desta forma, todos os momentos serão degraus no nosso caminho de santificação» (n.º 31).

* «O gnosticismo supõe ‘uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos’» (n.º 36).

* «Quando alguém tem resposta para todas as perguntas, demonstra que não está no bom caminho e é possível que seja um falso profeta, que usa a religião para seu benefício, ao serviço das próprias lucubrações psicológicas e mentais» (n.º 41).

* «O santo é capaz de viver com alegria e sentido de humor. Sem perder o realismo, ilumina os outros com um espírito positivo e rico de esperança». (n.º 112).

* «A comunidade, que guarda os pequenos detalhes do amor e na qual os membros cuidam uns dos outros e formam um espaço aberto e evangelizador, é lugar da presença do Ressuscitado que a vai santificando segundo o projeto do Pai» (n.º 145).

* «Como é possível saber se algo vem do Espírito Santo ou se deriva do espírito do mundo e do espírito maligno? A única forma é o discernimento. Este não requer apenas uma boa capacidade de raciocinar e sentido comum, é também um dom que é preciso pedir. Se o pedirmos com confiança ao Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos esforçarmos por cultivá-lo com a oração, a reflexão, a leitura e o bom conselho, poderemos certamente crescer nesta capacidade espiritual» (n.º 166).

* «Condição essencial para avançar no discernimento é educar-se para a paciência de Deus e os seus tempos, que nunca são os nossos» (n.º 174). 

= Estes respigos podem cativar-nos para a leitura – fácil, amena e interpelativa – de mais este documento papal. Com efeito, nesta exortação apostólica vemos uma espécie de testamento do Papa Francisco, que nos tem deixado vários documentos, sobretudo na área das ‘exortações’, onde acentua a tónica da alegria – veja-se o título, em português, desses textos: a alegria do evangelho, a alegria do amor, alegrai-vos e exultai – numa espécie de configuração do seu pontificado e como testemunho de vida dos cristãos no mundo…

 

António Sílvio Couto  


quinta-feira, 12 de abril de 2018

‘Burnout’: explicação ou desculpa?


Por estes dias temos sido constantemente intoxicados com notícias duma agremiação desportiva de grande alcance nacional. Muito para além da parafernália de questões visíveis e subjacentes, colocam-se imensas perguntas sobre as causas, muitas outras se põem sobre as consequências, mas as mais sérias e exigentes referem-se às explicações sobre o assunto.

Surgiu, no entanto, um termo que pode resumir aquilo que temos estado a assistir: chama-se ‘síndrome de Burnout’. O que é? Como se pode entender? Que repercussões parece deixar?

Consultando a internet encontramos que a ‘síndrome de Burnout’, também chamada de síndrome do esgotamento profissional, foi assim denominada por um psicanalista novaiorquino no início dos anos 70 do século passado.

Seria tal ‘doença’ o desejo de ser o melhor e sempre demonstrar alto grau de desempenho. Noutra fase importante da syndrome, o portador de Burnout mede a autoestima pela capacidade de realização e sucesso. O que tem início com satisfação e prazer termina quando esse desempenho não é reconhecido. Nesse estágio, a necessidade de se afirmar e o desejo de realização se transformam em obstinação e compulsão; o paciente nesta busca sofre, além de problemas de ordem psicológica, forte desgaste físico, gerando fadiga e exaustão. É uma patologia que atinge pessoas da área da saúde, da segurança pública, no setor bancário, na educação, na tecnologia da informação, em gerentes de projetos, profissionais da saúde em geral, jornalistas, advogados, pilotos, professores e até mesmo voluntários… 

= Atendendo à complexidade desta ‘doença’ não queremos colá-la a ninguém, mas antes será saudável, que saibamos discernir nos outros, indícios que nem sempre – clara, distinta e humildemente – aceitámos em nós mesmos.

Atendendo à contingência da nossa condição etária, podemos e devemos ir aprendendo, com o passar dos anos, a conhecer-nos, não só naquilo em que somos capazes de desenvolver as qualidades e dons da vida, mas também nos defeitos, erros e mesmo más opções em tantas das circunstâncias. Talvez se possa chamar a isto: maturidade, essa vivência que os anos concedem, mas cuja aprendizagem nas escolas/universidades só na da vida…Mesmo assim há coisas e situações em que a sabedoria da vida nos faz aprender com avanços-e-recuos, umas vezes entendendo com facilidade e, tantas outras, só passado algum tempo e depois duma razoável reflexão. 

= À luz da síndrome supra citado – de Burnout – poderemos desenvolver alguns aspetos sobre a ‘teoria da imagem’ – a que eu tenho de mim mesmo, a que os outros têm de mim, a que pretendo que os outros tenham de mim, a que dou de mim mesmo e os outros veem ou conhecem… Vejamos, então, as diversas vertentes:

* Que imagem tenho de mim mesmo? Pode verdadeira ou empolada, convexa ou côncava, exaltada ou humilhada, positiva ou negativizada, aberta ou em fechamento…tudo dependendo do lugar onde eu próprio me coloco…

* A imagem que os outros têm de mim? Pode ser favorável ou depreciada, correta ou abusiva, pelos defeitos ou pelas qualidades, com verdade ou manipulada…sabe-se lá com que exigências e sob que condições…

* Qual a imagem que pretendo que os outros tenham de mim? Aqui nem sempre o desejo se coadunará com a sua concretização, pois poderemos querer dar aos outros uma imagem que está (ou pode estar) desfasada daquilo que eles veem, entendem ou apreciam. Nalguns casos sob a imagem duma qualidade se poderá esconder algum defeito veem mais visível aos outros do que a mim mesmo. ‘Quando for elevado, sabereis quem eu sou’ – disse Jesus no evangelho. Como isso é verdade, quando uma pessoa tem um lugar de destaque: parece que se veem melhor os defeitos e como que se obnubilam as qualidades! 

= Tendo em conta a ‘síndrome de Burnout’ e a figura que fez desencadear esta pequena reflexão como que poderemos criar um salutar hábito de fazermos o nosso exame de consciência diário, por forma a irmos aprendendo a nossa autoavaliação e como cuidarmos das infiltrações egoístas com que vimos no dia-a-dia.

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 9 de abril de 2018

As ‘nossas’ guerras perdidas…


Ao longo da nossa história nacional – de quase novecentos anos – houve épocas de batalhas e de guerras que foram importantes e essenciais para a nossa identidade, mas também houve guerras onde, ao termos entrado nelas, quase marcamos a nossa condição de derrotados…

No século XX houve dois momentos de ‘guerra’ em que tal faceta foi assaz notória, senão mesmo cáustica para a nossa ‘personalidade coletiva’. Referimo-nos à presença lusitana na primeira guerra mundial (1914-1918) e à apelidada ‘guerra colonial’ (1961-1974) nas antigas províncias ultramarinas, sobretudo, em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique… Em ambas as ‘guerras’, para além de bastantes mortos, deixamos um rasto de ‘soldado desconhecido’, essa entidade de quem não se sabe o nome, mas cuja perda se tornou, de muitos e variados modos, irreparável…e não será com monumentos ou com chamas a crepitar em maré de homenagem que narcotizaremos a nossa consciência coletiva.  

* A presença dos militares portugueses na I guerra mundial (1914-1918) é um dos atos mais fatídicos e irracionais do nosso ‘eu coletivo’. Segundo dados dos meios castrenses houve mais de cinquenta mil homens que integraram o designado ‘corpo expedicionário português’, em França, acrescentando-se ainda mais outros cinquenta mil para a frente de defesa dos ataques em África aos territórios coloniais.

Quais as razões para a participação ‘oferecida’ nesta beligerância, nós, um país periférico? Três breves razões: deveres para com a aliança britânica, defesa do território ultramarino e posicionamento internacional após o conflito…

Porque avançamos para a contenda? Numa tentativa da consolidação da república – desencadeada anos antes – e cujo principal apoio (ideológico) vinha, sobretudo, da França…

Qual a população portuguesa ao tempo da I guerra mundial? Éramos cerca de seis milhões, vivendo 80% nas zonas rurais, e, desses outros vinte por cento de citadinos, metade dessa população estava nas cidades (regiões) de Lisboa e do Porto. De referir que a mobilização para o conflito – europeu ou africano – trouxe grandes tribulações sociais, económicas e até culturais.

O momento mais fatídico da I guerra mundial para os militares portugueses deu-se, em La Lys (na Flandres – região ribeira e lamacenta), a 9 de abril de 1918: sob ordens dos britânicos, os lusos estimavam serem substituídos nas trincheiras – esse conceito marcante desta guerra, sobretudo, em França – por esses dias, mas quatro divisões alemãs atacam os quase ‘desmobilizados’, desmotivados e desgovernados portugueses…sendo mortos mais de seis centenas e feitos prisioneiros mais de seis mil…

Decorridos cem anos não sei se aprendemos a lição, pois continuamos a comportar-nos como se fossemos capazes de vencer tudo e todos, quando nem nos conseguimos dominar-nos a nós mesmos. Continuamos a sentir-nos senhores de grandes feitos, empolados aos nossos olhos, mas que ninguém leva a sério, pois fazemos figura de pretensiosos sem estofo de heróis…e nem a sublimação de certos dirigentes nos deveria enganar, ontem como hoje!  

* Da outra ‘guerra’ que perdemos, a ‘colonial’, ainda não foi feito o distanciamento capaz. Bastará olhar para alguma leitura enviesada com que certos programas televisivos – alguns pagos com dinheiros estatais – e colocados na boca de historiadores marxistas-trotskistas, que conseguem dar a sua leitura dialética da história, quando há muitas outras formas de fazer a história, que não só a deles…

Os números desta mais uma vez guerra perdida ou mesmo sem sentido: envolveu cento e cinquenta mil militares do lado português e mais de cinquenta mil operacionais nas ‘forças de libertação’. Os resultados foram: do lado português – cerca de nove mil mortos (à média de 630 por ano, o que dá cerca de dois mortos por dia…nos treze anos de conflito), mais de quinze mil deficientes físicos e psicológicos; do outro lado – os dados são complexos, pois envolvem operacionais e populações, podendo atingir mais de cem mil pessoas.

Que deixámos depois desta guerra inglória e traumatizante, até para as famílias? Deixámos países ingovernáveis, entregues a ditaduras – até hoje! – seguindo nexos de causalidade duvidosos, sustidos e sustendo ideologias ultrapassadas no tempo, na história e na memória!    

 

António Sílvio Couto  


sábado, 7 de abril de 2018

Pagamento estatal das ‘artes’


Eis que, de repente, aquilo que era designado de ‘cultura’ foi revertido em ‘artes’, tornando-se a discussão em volta do modo como o Estado/governo deve pagar a uns tantos/as ‘artistas’ com dinheiros públicos…à luz, sabe-se lá, se do mérito, se do compadrio ou se sob a influência duma certa ideologia que se acha no direito de viver dependurada nos serviços estatais… 

= Uma nota ‘artística’ explicativa.

Somos um país relativamente pequeno, mas cujos termos não têm a mesma significação se usados a norte, se na capital e arredores.

Assim um trabalhador das obras da construção civil, na sua categoria com estatuto, é chamado de ‘pedreiro’, na zona de Lisboa e de ‘trolha’, na região norte. Com efeito, pedreiro nesta zona do país é quem trabalha a pedra, normalmente cortando-a da pedreira e até assentando-a no terreno. Por seu turno, chamar de ‘pintor’ no norte corresponde ao estucador da região lisboeta, que pode englobar várias etapas e categorias… E, se for de grande especialidade toma a designação de artista, na região norte, denotando que não é um pintor qualquer, antes se distingue pelas obras já realizadas…em paredes, casas e tetos, com a subtileza de artista. Ora, na capital e arredores, ‘artista’ lida com outras matérias e faz da sua ‘arte’ um desempenho bem mais subtil e ‘cultural’…

A riqueza conotativa da nossa língua coloca-nos perante a necessidade de sabermos onde nos encontramos ao falar e a quem nos dirigimos como recetores da nossa comunicação…

Assim, ‘artista’ tem tantos significados e poderá acontecer que os sinónimos não nos interessem todos! 

= A mudança – agora é mais comum dizer ‘reversão’ – da aplicação de ‘artes’ em vez de ‘cultura’ é, certamente, mais do que uma subtileza de linguagem. Talvez, assim, sejam incluídas companhias e estruturas teatrais, figuras e atores, áreas e vetores duma sociedade que precisa de se alimentada com os dinheiros do Estado/governo, seja qual for a sua qualidade de intervenção cultural.

Não há dúvida de que temos pessoas que se prepararam para atuar em palco, só que este nem sempre está disponível para tantos/as artistas. A lista de artistas é longa e prolixa, mas nem todos/as têm a mesma qualidade, antes se vão desenrolando muitos outros aspetos de sucesso, por vezes, ancorado no espaço televisivo e como que vivendo em circuito fechado outras reivindicações artísticas em maré de crise…

A mais grave emergência dos protestos e com os artistas protestantes organizados, foi a consonância partidária/ideológica de formas marxistas, trotskistas e idealistas sociais… Quatro décadas depois da revolução de abril ainda se nota um proeminente complexo de esquerda que tenta promover os seus e os faz ganhar visibilidade, pela simples razão que querem mais dinheiro, embora sem olhar a meios, criando à sua volta um ambiente de artistas que se fazem ouvir e exigem mais umas centenas/milhares de euros despejados sobre quem os queria poupar antes, mas agora faz o discurso reivindicativo e quer colher boa fatia do bolo dos dinheiros públicos…  

= Cultura ou artistas, qual dos vetores é mais importante? Ao nível estatal vai-se tentando ludibriar os mais desatentos, pois com tanto sucesso de execução orçamental que são uns míseros vinte e cinco milhões de euros para pacificar as hostes? Mais uma vez o aforismo latino – ‘pão e jogos’ – tem lugar na vida e no trato com as questões essenciais da vida. Porque haveríamos de não satisfazer quem deseja mais dinheiro? Porque teríamos de fazer contas de mercearia, se as tabelas de excel fazem a distribuição das pretensões mais ou menos bem-sucedidas nas contas agora e por mais quatro anos?

Enquanto os artistas e os fazedores de cultura continuarem a ser a voz do dono e, sobretudo, do patrocinador, quem duvidará que outros setores vão sair à rua para reclamar os seus intentos. Assim o país voltará a afundar-se…não é preciso ser adivinho, bastará não querer enganar-se nem voltar a ser enganado…   

 

António Sílvio Couto



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Cultura sob alçada do Estado?


Por estes dias saíram a terreiro algumas das associações que não foram contempladas pelo bolo dos subsídios do Estado, através da ‘longa manus’ do governo…à cultura. Umas foram atendidas e outras preteridas; umas foram bafejadas pela sorte do poder e outras excluídas da fatia de sobrevivência; umas sentiam-se agora mais próximas da fornalha onde se cozinha a ideologia, outras não tiveram a maquia que tanta falta faz para manter o sistema a funcionar; umas dizem que poderão desaparecer, outras intentarão encontrar outros parceiros, adiando essa eutanásia…social e cultural.

 

= Desde logo será um tanto útil tentarmos encontrar uma definição de cultura: ‘todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade’. Eis uma citação descritiva dum autor brasileiro, Edward B. Tylor, referido na wikipédia… Segundo esta mesma fonte ‘cultura’ é também associada normalmente às formas de manifestação artística e/ou técnica da humanidade… Por ser fortemente associada ao conceito de civilização, no século XVIII, a cultura, muitas vezes, se confundiu com noções de desenvolvimento, de educação, de bons costumes, de etiqueta e de comportamentos de elite…

Atendendo a esta diversidade de interpretações de ‘cultura’ talvez seja um tanto ousado e redutor entender cultura como certos fenómenos de índole elitista, contrapondo ‘cultura erudita’ a ‘cultura popular’, fazendo valer aquela em detrimento desta, só porque aqueles se acham no direito de serem cultos (instruídos e em nível pretensamente superior) e os outros conotados com incultos…e consumidores dessa tal cultura! 

= Se tivermos em conta o organigrama do atual governo veremos que o setor da (dita) cultura tem estatuto de ministério. Embora tenha andado um pouco aos solavancos – desde a sua primeira criação em 1983, no nono governo constitucional – entre secretaria de estado ou ministério, sendo ainda incluído tanto na área da educação como sob a tutela da presidência do conselho de ministros…Sob o longo manto de tutelagem, a ‘cultura’ abrange desde pessoas e instituições até edifícios e arquivos, passando pelo teatro, a música, o audiovisual, a comunicação social (clássica ou mais atual), os direitos de autor, a dança, a literatura e múltiplas artes…

Por entre tantas e tão díspares dimensões culturais sobram as necessidades para que uns outros possam ganhar a vida fazendo disso cultura, ou pior, dando a entender que a cultura parece que se faz de mão estendida e ao sabor de quem tem a possibilidade de atribuir subsídios e/ou de criar pendurados nos dinheiros do Estado, desde que possam apresentar algo apelidado de cultural…

É neste item que algo se complica: não podemos continuar a alimentar subsídio-dependentes, mesmo que possuidores duma instrução superior – conservatório, escola de artes, no cinema, na comunicação social, etc. – mas que vivem dependurados no Estado, qual patrão de ‘artistas’ e como que aprisionador da criatividade, quando tantos outros campos procuram desenvolver as suas atividades sem estarem em contínua dependência dos dinheiros públicos sem retorno no investimento…O mérito vale muito mais do que tantos espetáculos de fraca qualidade, como temos visto, ouvido e lido! 

= Em jeito de questionamento deixamos breves inquietações:

* Quando vemos serem atores de cultura os que são, preferencialmente, anticristãos como que sentimos um misto de revolta e de comiseração: como é possível promover quem está contra quem foi (e é) um dos fautores da cultura...sobretudo europeia e de cariz ocidental?  

* Efetivamente, os maiores paladinos da (pretensa) cultura foram (ou têm sido) os que vão denegrindo, de forma tácita ou mais ostensiva, os valores culturais de incidência cristã. Seja qual for o campo de expressão cultural/artística – musical, literária, cinéfila, etc. – parece que só será bem-sucedido se combater, preferencialmente, os valores de matriz cristã…

* Até onde irá a propaganda anticristã para excluir os crentes e favorecer os tendencialmente descrentes, agnósticos e ateus?

 

António Sílvio Couto


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Celebrar a Páscoa ou viver em Páscoa?


De entre tantas questões que nos podem ser colocadas esta poderá não ser tão displicente quanto se possa considerar: celebramos a Páscoa (como uma data) ou vivemos a Páscoa (como atitude consciente, esclarecida e comprometida) na vida?

* Sobre o primeiro aspeto bastará consultar o calendário e ficaremos a saber que a ‘Páscoa’ se celebra no domingo seguinte à primeira lua cheia do equinócio da primavera (no hemisfério norte), podendo ocorrer entre 22 de março e 25 de abril…como datas extremas. Logo a data da Páscoa está ligada, no hemisfério norte, ao ressurgir da vida na natureza e, possivelmente, na dimensão espiritual – no nosso contexto – de índole cristã. Dada a centralidade desta data, assim, se calculam outros momentos celebrativos e até de natureza ou incidência mais mundana e social, como o carnaval (antes) e o Pentecostes (depois) da data da Páscoa…

* Sobre o segundo aspeto – viver a Páscoa – isso coloca-nos outros ingredientes que nos interessam tocar, refletir e aprofundar. Com efeito, nós vivemos tudo – os tempos litúrgicos e a sua preparação, as festas humanas, sociais e culturais – inseridos num tempo pascal, isto é, estamos em Páscoa desde que ela aconteceu com a Ressurreição de Jesus. Nada escapa a este fundo de vivência e tudo o que possa fazer-nos parecer que não é assim soará a confusão e/ou a falta de verdadeiro sentido pascal cristão.  

= Mesmo que, de forma breve, deixamos algumas questões atinentes à celebração da Páscoa mais na vertente social e cultural, bem como outras inquietações sobre certos ‘modos e ritos’ da época da Páscoa, mas que de pascais têm (ou parecem ter) muito pouco e, então, de cristãos quase nem resquícios daquilo que lhes deu origem. Será que a Páscoa se reduz a certos ritmos gastronómicos, mesmo sem lhes sabermos a sua origem e qual o conteúdo? Não será que alguns dos atos celebrativos (procissões e outros momentos extra-templos) revelam mais um certo verniz cristão, mas pouco conhecimento da razão de ser dos mesmos? Mesmo que já tenha terminados o tempo da cristandade, não continuámos com certos tiques de religião social, senão na teoria, ao menos na prática? Nalgumas regiões a dita ‘visita pascal’ ou o ‘compasso’ não refletirá mais uma festa nem sempre preenchida de sentido cristão e de alegria verdadeira? Não haverá muita alegria sem miolo? Não se andará a fazer festa, ignorando ou esquecendo O festejado? 

= Atendendo ao que motiva esta reflexão é de grande relevância ter em conta que tudo quanto a Igreja católica festeja o faz em contexto de tempo da Páscoa. Embora haja um designado ‘tempo pascal’, que decorre entre o domingo de Páscoa e o Pentecostes, isso acontece em tempo de Páscoa que não mais acaba. Todos os outros momentos religiosos, como Natal e a sua preparação pelo Advento, a Páscoa e a preparação na Quaresma, bem como o resto dos domingos do Tempo Comum, solenidades e festas de Nossa Senhora e de Santos/as, são vividos numa Páscoa de contínua vivência.

Dá a impressão que a celebração de certos rituais religiosos estão ser vividos como se fossem historicamente reproduzíveis no tempo e no espaço. Não mais há nem haverá tempo de Natal nem da Páscoa, esses já aconteceram na história – com tempos e espaços definidos – e são irrepetíveis. Agora temos de saber vivê-los com espírito de Páscoa, perscrutando o sentido de cada um deles na época do ano civil, religioso, cultural ou emocional. Se assim for muitos dos sinais e das caraterizações com que vivemos cada um desses tempos, sobretudo tendo em conta a pressão económica e de consumo, poderão ganhar um sentido relativo – isto é, relativizando-o e não se deixando absorver pela sua materialização – àquilo que deve despertar em nós cada uma dessas etapas do nosso tempo de caminhada terrena. Também haverá sempre novidade em cada um desses tempos, pois não estamos a repetir o que foi já vivido em anos transatos, mas cada momento terá uma graça especial e far-nos-á estar em contínua aferição à sua vivência: nenhum momento será igual aos anteriores, até porque temos idade e experiência humana entretanto adquiridas…

A Páscoa deste ano é irrepetível e está inserida na única Páscoa que dá sentido a todas as outras, a de Jesus Cristo que quer se acolhido como Ressuscitado na minha vida pessoal, na família e na Igreja!      

 

António Sílvio Couto